segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Reflexões 4# |

Imagine uma vila, e ao norte dela um rio que foi represado. Um dia, os fiscais da barragem, ou qualquer pessoa, notam algumas rachaduras e outros pontos que demonstram que ela está enfraquecida e vai ceder cedo ou tarde.

Os moradores da vila são então avisados sobre a possibilidade dela ceder a qualquer momento. Entretanto, assim que os primeiros se dispuseram a reparar a represa, os outros se calaram e voltaram a viver suas vidas como se tudo estivesse resolvido.

Porem, só os primeiros dispostos não foram suficientes para consertar a barragem. Que então veio a estourar e arrasar tudo no seu caminho, incluindo a vila e os outros moradores.

Portanto, não interessa se você não quer participar, ou se você quer ficar neutro. Por que nada é neutro. O simples ato de decidir não participar de algo já é uma escolha, e vai influenciar, para o “bem” ou para o “mau”. Pois na vila, se todos tivessem participado e ajudado a reparar a barragem, ela não teria rompido e nenhuma desgraça teria acontecido.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O Incrível da Vida |

O incrível da vida, é que nós nunca temos como ter certeza de nada. Até mesmo essa afirmação é incerta, pois se for possível ter certeza de algo, então ela também esta errada, mas isso nós nunca saberemos, e essa é só outra prova disso.

Por exemplo, suponhamos que você está dirigindo um carro numa estrada e avista uma ponte no caminho. Você ira atravessa-la, pois acredita que ela é real. Mas se não for você ira cair no rio, e você nunca ira saber se ela é ou não até atravessar. Entretanto, até mesmo se por ventura você conseguir atravessa-la, você não tem como saber se foi real, se foi um sonho ou uma miragem.

Pois da mesma forma que quando atravessou a ponte, você não tinha como saber se era real ou não, isso se aplica a tudo e a qualquer coisa. Ao segurar uma pedra, você pode estar segurando uma pedra, ou acreditar que esta segurando uma pedra, e em qualquer hipótese você não tem como saber a verdade.

Mas as nossas crenças ainda assim têm sua importância. Como quando atravessou a ponte, a sua crença de que ela existia e lhe suportaria foram fundamentais para que atravessasse. Ou quando foi comer seu almoço, e usou o talher para pegar a comida, a sua crença de que ela estava no prato foi fundamental para que comesse. Ou a minha crença de que meu teclado existe que é fundamental para continuar digitando esse texto.

Isso nos leva a outra ideia, sobre a qual já discorri, da “Verdade Real (VR) e Verdade Pessoal (VP)”. As nossas crenças são nossas VP’s, que são nossas bases para tomarmos decisões, são nossos parâmetros. Já as VR’s são aquilo que as coisas realmente são, (se é que realmente são alguma coisa, e isso não há como saber, pois se trata de uma VP), que são independentes das nossas VP’s. Por exemplo, a crença de que a ponte existe, e que te faz tentar atravessa-la, é uma VP. Agora, se na verdade não existir ponte, e você cair no rio, então a VR é que não existia ponte alguma. Mas como eu disse, você não tem como saber a VR, mas ela está lá, independente das suas VP’s.

Ao fim, o engraçado é que nunca saberemos a verdade das coisas. Pois nós só sabemos das coisas.

Natan Celidonio Fernandes.

Louveira.

19.01.2011, 00:03 AM

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Crônicas Contemporâneas 2# |

Era um outro dia, e ninguém poderia imaginar tudo o que aconteceria do momento em que o astro rei se levantasse à sua morte no poente.

Acordou sob forte chuva, tão forte que nem os animais ousavam se levantar. O sono, que parecia um gigante de tão forte, quase o mandou de volta aos sonhos, e o teria conseguido, se não fosse por Ela. Ela, que era sua amada mãe, parecia um ser de outro mundo. Acordava cedo, muitas vezes antes mesmo do raiar do Sol, pulava da cama, se arrumava e já começava a gritar pela casa com os cachorros. Saia toda contente para tratar dos bichos, e como havia bicho: tinha cachorro, que só eles já somavam seis, tinha galinha, tinha pintinho, tinha gato, até cabra tinha. Mas como se não bastasse, ainda arrumava jeito de lavar a louça, preparava a mesa e ainda fazia o café...

A guerra havia se intensificado, e estava ficando difícil conseguir passar algum tempo sem ser alvejado. Além disso, com a forte chuva que caia não foi possível sair em busca de comida. Por sorte, conheciam alguns camaradas que levaram alimentos, o que supriu suas necessidades pelo resto do dia. Mas não demorou e logo o aguaceiro passou. O que possibilitou ir até o Centro de Controle Geral. Precisavam buscar alguns itens necessários para continuar exercendo suas atividades. Para isso foram em quatro. A Rainha, pois sem ela não seria possível chegar ao destino final; seu filho, o Oriental, pois já era familiarizado com o ambiente e conhecia a sua rotina; o Homem Forte, pois em caso extremo seria necessário alguém além do Oriental para defender o grupo e garantir o cumprimento da missão; e também o Rapaz, que era o novato e precisava adquirir mais experiência...

Quando chegou a sua casa, e já faziam cerca de cinco dias que não voltava, ele descobriu que o Monstro havia comido outras duas galinhas na noite anterior, e que ainda rondava pela região. Estavam sem energia, pois as chuvas haviam danificado a rede. Enquanto Ela preparava o jantar, ele tratou de pegar sua arma, se preparou e foi até o vizinho mais próximo para saber do paradeiro do Monstro. Mas não haviam visto nada por lá. A surpresa foi quando voltou, pois o maldito estava beirando o terraço da casa. Sacou a arma, apontou e deu-lhe chumbo! Errou por pouco. A criatura era ágil e conseguiu fugir para o meio do mato, a onde se tornava inviável continuar atrás dela. Desistiu da caçada e foi jantar, Ela o estava chamando e perguntando sobre o que acontecera. Algum tempo mais tarde, enquanto balançava numa rede na varanda, apreciando o por do Sol após a chuva, com a arma no colo e os cachorros a sua volta, um parente seu veio fazer-lhe uma visita. Era seu Primo, que após colocarem a conversa em dia, decidiu juntar-se a ele contra o Monstro. Logo após se prepararem e acertarem tudo sobre a caçada, ouviram o ladrar dos cães e foram averiguar. Era quem pensavam, o Monstro. Ele estava rondando o terraço novamente, mas de onde os dois primos estavam não seria uma boa ideia confronta-lo de frente. Voltaram e decidiram se posicionar no quarto, pois de lá teriam uma visão geral do lado do terraço onde estava o maldito. Ao abrirem a janela, lá estava ele, parou alguns segundos e encarou os dois jovens de frente, olhou para eles olhos nos olhos. Ele tinha os olhos negros, e uma pelagem preta, toda desgrenhada, como seria de se esperar de uma criatura selvagem. Mas os dois rapazes também não tardaram, o Primo que estava com a arma e tinha boa mira, apoiou-a no peitoril da janela e disparou duas vezes. O primeiro disparo atingiu-o em cheio, perto da calda. Já o segundo não há como dizer, pois o Monstro já estava a certa distancia e com o breu da noite não tinha como ter certeza se o atingira. Mas uma coisa é certa, o Monstro não tornaria a voltar ali tão cedo...


Natan Celidonio Fernandes.

Louveira.

13.01.2011, 23:07 PM

Crônicas Contemporâneas |

Eles eram seis quando chegou. Um era forte, casado e tinha um filho. O outro era baixo, gordinho e risonho. Seu companheiro era um sábio esguio e ligeiro. Havia também outros dois, um senhorio de estatura mediana, de poucas palavras, mas bom sujeito, e o outro que era o mais jovem, um oriental baixinho e incrivelmente forte.

Junto deles havia uma única dama, a Rainha. Uma mulher pequena, de boa postura e mãe do mais jovem. Sábia e moderada, ela era a “espinha dorsal” deles. Sem ela nada acontecia...

Certa vez, um jovem rapaz se aproximou. Eles o acolheram como faziam com qualquer um, e o trataram como se fosse um conhecido de longa data. Foi um choque no início, mas o rapaz logo tratou de se adaptar e aos poucos foi aprendendo a conviver com eles.

Um fato curioso é que havia uma guerra sendo travada lá. Uma guerra que se estendia há muito tempo, tanto tempo que ninguém mais sabia quando ou porque haviam começado. Certo é que essa batalha era imprevisível. Quando menos se esperava, um projétil poderia passar lado a lado com seus ombros, e isso se tivesse sorte, pois na maioria dos casos os ferimentos eram nos braços ou no tronco e vez ou outra atingiam a cabeça de alguém...

O rapaz, recém agregado, tinha o hábito de escrever sobre aquilo que via e o que pensava. Como não poderia deixar de fazer, decidiu escrever sobre sua nova família e suas aventuras nesse novo mundo, chamado: Edifício Nivoloni, 905.


Natan Celidonio Fernandes.

Louveira.

13.01.2011, 00:16 AM

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O Poeta |

A vida do poeta é a mais bela, é de longe a mais bonita, a mais serena, é a mais doce e também a mais amarga, a mais alegre e a mais boba, não a mais triste, mas beira ela. Solitária no amor, mas farta de alegria, pois os poetas são amigos dos mais confiáveis, são também os mais queridos e também mais odiados, pois tendem a falar em demasia sobre tudo que sabem, entretanto falam bem e sabem ser sofisticados quando querem.

São ousados em suas aventuras, mas seus amores sempre terminam em desventuras e poemas. Afinal, um poeta não é digno do nome se não escrever aquilo que sente e aquilo que vê, e os poetas observam bastante, ah se observam, pena é que não se lembrem muito do que vêem, pois são conhecidos por abusar das drogas que dispõe o homem.

A vida de um poeta é conturbada. Recheada de risos e lágrimas, cartas e navalhas. Mas nós sempre vivemos, choramos, rimos e escrevemos, então nosso corpo falece e vamos-nos para a onde todos desconhecem, para a onde tanto indagamos, para a onde tanto tememos ou torcemos. Mas nesse momento, quando todas as dores cessarem, quando todas as dívidas que tínhamos expirarem, quando todo o ódio, as saudades, os medos, as fantasias, os desejos e todos os sentimentos que tínhamos se acabarem, quando todas as duvidas que nós tínhamos não tiverem mais importância, quando as ultimas areias do nosso tempo caírem, quando todas as nossas riquezas forem pilhadas, saqueadas, divididas, herdadas, quando nossos cadáveres estiverem a sete palmos abaixo do solo, enfim, quando nós partirmos, os pássaros ainda irão cantar pela manhã, os ventos continuaram a soprar como sempre sopraram, as montanhas vão continuar como sempre estiveram, a grama será tão verde quanto ontem, as pessoas ainda irão fazer sexo, beber e matar umas as outras, florestas ainda serão derrubadas, animais silvestres serão caçados e mortos, suas peles ainda irão vestir madames pelo mundo, a chuva vai continuar a cair, cada vez mais ácida, e o Sol - Ah o Sol! – ele vai continuar a brilhar, apesar de tanta barbaridade...

Natan Celidonio Fernandes.

Jundiaí.

03.01.2011, 10:10 AM

La Desventura |

Já era dia e nada. Os pássaros cantavam pela manhã que nascia. As pessoas nas casas acordavam e se arrumavam para mais um dia de trabalho. Até as flores pareciam acordar e dar bom dia para o mundo. O Sol como sempre brilhava mais forte depois da chuva.
O café estava pronto, e os dois jovens estavam ansiosos para o retorno dos amigos. Um homem comum fumava seu cigarro na calçada em frente a sua casa. A grama do terreno baldio do outro lado da rua estava cintilante, era o orvalho fazendo seu trabalho. Um outro rapaz dormia largado num colchão no chão do quarto. A cidade estava acordando, mas em algum lugar dois jovens ainda pedalavam exaustos de volta para casa.
A historia era longa, mas valia a pena revive-la enquanto tomavam um belo de um café...

Eram três e quinze da madrugada quando decidiram ir buscar mais flores pela cidade. Partiram dois, em bicicletas, e deveriam voltar até cinco e meia, como previram. Dos que ficaram, eram três, um dormiu pouco depois e só foi acordar bem mais tarde. Os outros dois se mantiveram firmes em suas palavras de ficarem no aguardo dos camaradas. Mas o tempo passava e nada de noticias. Até que os dois aventureiros fizeram contato por volta das quatro e meia, estavam num morro muito distante e até aquele momento não haviam encontrado nenhuma flor, naquele tempo estava complicado encontrá-la, pois era muito cobiçada. Estavam indo para um outro local que também era famoso pelas muitas flores que cresciam ali.
Mas essa jornada levou mais tempo do que eles imaginavam. O relógio batia seis da manhã quando pararam no comercio de um posto qualquer para tomar um café. Não se demoraram por lá e logo partiram. Mais um longo caminho de volta, e os dois já quase não agüentavam pedalar. Quando se aproximaram de casa, os dois fiéis companheiros ouviram as vozes e foram recebê-los felizes, pois haviam acabado de passar o café e pretendiam ir buscar pães, presunto e queijo para tomar um belo café da manhã. Então os dois aventureiros olharam os amigos nos olhos, um deles parou e começou a gargalhar descontroladamente, enquanto o outro começou a discorrer sobre tudo que haviam passado e todos os lugares por onde foram e todas as pessoas que encontraram, enfim, toda aquela desventura por qual passaram.
Ao fim não conseguiram as flores, tomaram o café, arrumaram a casa, e foram se deitar. Com a exceção de um deles, que não estava cansado e pelo contrario estava era muito disposto. Ligou sua musica e começou a escrever esta história, que poderia bem ser uma crônica qualquer, mas é mais que isso, é um breve registro da vida de um grupo de jovens do começo da segunda década do terceiro milênio.


Natan Celidonio Fernandes.
Jundiaí.

03.01.2011.

09:10

domingo, 2 de janeiro de 2011

Bicho Homem |

Chegada é a hora de nos irmos. O Sol já vai se por, e namorar o Mar bem de pertinho por alguns minutos. Então tudo se acalma, quando o astro rei vai se deitar, toda a vida também vai. E nem mesmo os predadores se levantam. Todos deitados e serenos.

As águas do rio Grande fazem barulho quando se jogam nas quedas da cachoeira, loucas de alegria pulam para amar as pedras. Os pássaros cantavam baixo as suas canções de ninar aos filhotes. No solo, as minhocas fazem a festa do pijama no sereno.Até os peixinhos que nas águas sonham de olhos bem abertos, e também o terrível bicho homem, até ele dorme. Todos dormem quando a Lua impera.

Mas o império dura pouco, apesar da suprema majestade da Imperatriz, assim que o Sol retorna de seu amor com o Mar, tudo vai voltando de vagar. Volta a ser como era antes do Longo Sono, tudo claro e ativo. Os pássaros cantam de alegria pelo novo dia, enquanto as minhocas voltam a se alimentar no subsolo. Os peixinhos voltam a nadar, e o homem a matar. Mas as águas... Há, as águas nunca param de pular nas pedras. Pois elas estão loucas, estão loucas de amor pelas pedras, que nunca as abandona, estão sempre lá, independente do que aconteça.E também acordou o homem. Que em seu ódio do Sol por ter-lhe interrompido os sonhos, mandou que se fizesse um tampão para acabar com o a luz do Sol, pois assim poderiam sonhar todos os sonhos.

O problema é que o homem, em seu ego cego acabou que não previu tudo, e assim que terminaram o tampão eles caíram todos no sono, pois o trabalho que tiveram para fazê-lo foi desumano. Mas o Sol quando veio foi bloqueado pelo tampão, e desde então nenhum raio de luz percorreu lugar algum desta terra, e nenhuma criatura andou novamente depois de dormir. Foi o sono final, aquele em que ninguém acordou. Nem os homens, e esse foi seu fim. Mortos pelo próprio ego. Cegos por ele em sua ânsia de conseguir o sonho eterno.