domingo, 9 de maio de 2010

Indignado |

Se você já teve a oportunidade de ver a peça ou ler o "Auto da Barca do Inferno" de Gil Vicente, então sabe quem é o Sapateiro e como se considerava digno de embarcar para o paraíso, já que tinha morrido comungado e a muitas missas havia ido. Mas se esquecera do povo que roubava com seu ofício, e da satisfação do dinheiro mal levado.

Tal como o Sapateiro, eu percebi que todos fazemos algo semelhante em níveis diferentes. E como ele, nós ficamos satisfeitíssimos e por vezes orgulhosos quando "passamos a perna", enganamos e tiramos proveito de nossos semelhantes. Mas como já disse, existem diferentes graus, em alguns fica tão evidente que ao nos depararmos com uma situação dessas ficamos chocados e até repugnamos. Entretanto, existem casos em que torna-se imperceptível a primeira vista, para isso é preciso olhar de outro ângulo e repensar sobre o fato.

Nessas sutilezas é onde costumamos cair, pois na sociedade de hoje parece comum e completamente aceitável que queiramos sempre tirar o máximo proveito das situações e das pessoas a nossa volta.

Pego como exemplo uma pessoa qualquer que tenha contratado os serviços de um (a) jardineiro (a). Esse então trabalha de sol a sol, muitas vezes por vários dias, para deixar o jardim maravilhoso. Então, ao final de tanto tempo e suor gastos com o trabalho, recebe uma quantia mísera pelo serviço. E essa pessoa que contratou o (a) jardineiro (a) fica então extremamente contente e satisfeita não só pelo jardim impecável, mas pelo preço que pagou no serviço.

Mas esse (a) jardineiro (a), talvez more em uma favela na periferia da cidade, com quatro bocas para alimentar em casa, com a esposa também trabalhando fora para ajudar a tentar sustentar a família e suas crianças na rua, sujeitas a marginalidade, a criminalidade. O sujeito já com inúmeras mazelas físicas e mentais, atravessa toda a cidade para trabalhar com o máximo afinco e dedicação no jardim de alguém com quem nunca teve nenhuma forma de intimidade, para então receber literalmente uma miséria que mal paga a viajem e o pão da semana seguinte. Enquanto algum abastado feliz sorri pelo negócio que fez.

Indignação e revolta são os sentimentos que tenho ao pensar nisso, mas por mais que eu fale e escreva, palavra nenhuma descreve a complexidade do que sinto.

A sociedade, doente, pouco a pouco se consome.
E enquanto cavamos o fundo do poço acreditando cegamente que não precisamos mudar de direção, pois uma hora tudo vai se resolver (quem sabe não cavamos até a China hã?), alguns poucos riem de nós da beira do poço e atiram pedras naqueles que tentam escalar para fora.

Então me diga, você vai ser mais um cavando o poço, ou vai me ajudar a subir para fora?

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