domingo, 17 de fevereiro de 2013

Cena de xadrez


            Tamborilou com a ponta dos dedos na mesa. Grunhiu algo como se falasse de si para si os lances que lhe apareciam às vistas. Fez o movimento, enquanto levava a outra mão ao queixo.
            O outro, não obstante o falatório e a pirraça do primeiro, não perdia o foco e tentava o mais possível manter-se concentrado. Olhou por cima dos óculos para o adversário e sentiu um leve aborrecimento. Via um sujeito baixo e gorducho, vestindo um calção e uma camiseta simples, de óculos, barba e uma grenha farta, com um pequeno rabo de cavalo na nuca.
            Duas jogadas e o primeiro alarga a vantagem, com um leve sorriso lhe assomando à face e sem deixar de fazer um comentário ou dois. Deixando o outro ainda mais inflamado. Este, porém, à medida que o enfado crescia, crescia também a sua força de vontade em não deixar transparecer num involuntário movimento corporal ou no semblante, o que realmente lhe passava no íntimo.
            Algumas jogadas à frente, com a vitória quase certa para o primeiro. O outro, que já se fartara dos apontamentos, das risadas estridentes e do próprio companheiro, comentou numa dessas, que estava com o jogo perdido.
            “E agora é que está perdido?!” repontou o primeiro com sarcasmo.
            A essas palavras, o outro quis morder-se de raiva, mas à medida, conteve-se e focando-se no jogo, lembrou-se de que estava acabado e percebendo que podia valer-se disto para sair dali, derrubou o rei e agradeceu a partida, sem apertos de mãos nem contato visual. Levantou-se, buscou um copo d’água e em silêncio retirou-se para ruminar tudo.

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